2008-02-11

Sábado de Contestação no Porto

No sábado de manhã, às 10h30, hora a que a noitada anterior me permitiu chegar com um mínimo de lucidez, não estavam mais do que 20 pessoas na porta principal do Bolhão. Soube, de imediato, que os restantes, um número considerável de pessoas, estava, nesse momento, em périplo de agitação, a percorrer as vias interiores e exteriores do mercado, com os mareantes a marcar o ritmo, mostrando pancartas e cartazes, distribuindo informação e recolhendo assinaturas. Numa outra volta, feita mais tarde, pude assistir a quatro pessoas que deixaram o que tinham programado para segundo lugar, de forma a poderem, também elas, participar na marcha contestatária.

Em relação à mobilização da semana anterior, a deste sábado ganhou em impacto e ruído, mas perdeu em espontaneidade e empatia com as pessoas “de fora” do movimento. Está, ao que parece, em crescendo. A recolha de assinaturas tem corrido melhor do que o que eu idealizava nos meus desejos mais irrealistas e a mobilização, não só esta visível, mas, sobretudo, a que não se aparece nos jornais nem nas televisões mas que marca presença diária no Bolhão e que preenche uma fatia importante da parte pensante do cérebro de um número considerável de pessoas, essa mobilização tem sido impressionante. Não tanto pela quantidade de gente envolvida. Acima de tudo pela paixão e pela capacidade de organização a que tenho assistido. Ou, dito de outra forma, o GAIA apareceu, erradamente, no Público de 3 de Fevereiro, com o mérito de ter convocado e organizado, de forma isolada, a primeira mobilização para a porta do Bolhão. Mas, pelo que as pessoas que o compõem têm feito, até merece esse erro.

Durante tarde, o resultado esperado da pior organização a que assisti nos últimos anos. Uma

concentração boicotada por pessoas que não cumprem o que se comprometem a fazer, um evento acordado quase histericamente por outras que o esvaziaram de entusiasmo com a sua ausência de participação, não poderia dar mais do que um encontro de amigos à sombra de duas faixas. Bonitas e certeiras, por sinal.

Deu, de qualquer modo, para distribuir centenas de comunicados semelhantes ao que se reproduz em baixo (não possuo a versão final) e uma centena de um outro texto, mais pormenorizado, sobre a questão das migrações. Deu, também, para que se descobrissem novas cumplicidades e, acima de tudo, para aprender que meter-me em coisas com organizações que, ao invés de basearem a sua existência em lutas, se regem por agendas não é para mim.


COMUNICADO DISTRUBUÍDO
A recente expulsão dos marroquinos detidos na unidade habitacional de santo António veio não só expor uma lei incompatível com os mais básicos direitos humanos, como também confirmar a natureza dos poderes governantes. Vivemos num Estado de excepção mais permanente para os mais pobres do que para os mais ricos em que leis, direitos, liberdades e garantias perdem o seu significado perante os interesses de Estado e da economia. Só assim se explicam as ilegalidades processuais cometidas neste processo, como a supressão informativa realizada às advogadas das pessoas expulsas, ou simples omissões jurídicas, como a recusa em aplicar a cláusula que adia a repatriação caso os detidos colaborem no desmantelamento de redes de tráfico de imigrantes.

Porém, apesar da sua brutalidade, este caso não constitui uma novidade. Em Portugal, há muito que se expulsam pessoas por não preencherem certos e determinados requisitos. Há muito que existem prisões para imigrantes obra do actual presidente da república Cavaco Silva, enquanto chefe de governo onde estes são detidos porque simplesmente estão onde não podem estar. Por nada mais. Há muito que se mantêm pessoas na clandestinidade, para que possam trabalhar sem contratos e sob salários de miséria. Há muito que se esqueceram as histórias dos avós e bisavós que entraram, permaneceram e trabalharam ilegalmente em França e outros países da Europa.

Os tempos são outros. O país é parte integrante da União Europeia (U.E) e, como tal, deve participar no seu processo de afirmação a nível mundial. Doa a quem doer. A organização da Cimeira UE-África, em que a tentativa de impor acordos de comércio livre se fez acompanhar pela negociação de parcerias na repressão à população imigrante; a participação no programa Frontex, um dispositivo de controlo fronteiriço, que inclui os barcos de guerra que patrulham o litoral, as vedações em Melila e Ceuta ou centros de detenção espalhados por toda a Europa; ou as rusgas realizadas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras os grandes centros urbanos ilustram o papel português na conspiração europeia contra os imigrantes.

Manifestamo-nos hoje contra qualquer lei de imigração que não garanta, sem quaisquer limitações, o direito a viver livremente neste país. Não só devido à existência de necessidades imperativas que obrigam as pessoas a partir e deixar as suas famílias a fuga às guerras, à pobreza e à destruição de recursos naturais, que alimentam as contas bancárias das grandes empresas transnacionais mas também porque não queremos viver num mundo dividido em redomas mais impenetráveis para uns do que para outros. Porque não são as pessoas que atravessam as fronteiras, mas sim estas que se atravessam nos caminhos das pessoas, negando assim uma qualidade inerente ao humano: o desejo de ir além, de procurar, de conhecer. Tudo isto é muito anterior à existência de fronteiras. Tudo isto continuará quando forem abolidas.

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2 Comments:

Anonymous efecto caldera said...

En España hay papeles y sanidad para todos los inmigrantes

10:42 da manhã  
Blogger megre said...

É pena que o mercado do bolhão não ter começado a ser destruido quando a câmera aprovou um projecto imobiliário especulativo mas quando sucessivos governos camarários tenham aprovado a sua destruição com o desfazelamento da zona circundante incluindo supermercados a porta do bolhão e shoppings nas traseiras. Como as pessoas só agem quando o choque é demasiado grande, se calhar devemo-nos culpar por deixar que isto tenha chegado sequer a este ponto.

Quanto ao texto sobre a imigração, que não percebo porque os dois se misturam, a imigração representa sempre um exodo de pessoas que fogem de sitios onde os europeus (e aqui os portugueses existem), americanos e outras potências como China, Japão, India, Brasil, etc. sugam os recursos e o dinheiro e entregam-se aos governos corruptos desses países criando assim verdadeiras fronteiras não como as conhecemos em limites fronteiriços soberanos mas a nível económico, por isso, quando compramos açucar barato ou brinqudos devemos lembrarmo-nos que muitas vezes a nossa acção passiva de conformismo social resulta numa verdadeira desgraça para milhões de famílias dependentes de grandes patronatos multinacionais que não têm cara. Criticar as acções governativas é fácil mas, e verdadeiras alternativas?

7:35 da tarde  

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